Decadência dos clubes gaúchos também atinge a Costa Doce: estádios abandonados, permutas e o desaparecimento de agremiações históricas.
A crise que se arrasta desde a década de 1970 no futebol gaúcho, marcada pela falta de incentivo e pela pressão imobiliária sobre áreas centrais, se reflete de forma contundente na região da Costa Doce. Clubes quase centenários, antes pilares da vida social de suas comunidades, hoje enfrentam abandono, perda de patrimônio ou até o desaparecimento completo.
Em Arambaré, o tradicional Navegantes perdeu a vitalidade que marcou sua história. Em Tapes, o Juvenil sofre com inatividade e falta de estrutura. Em São Lourenço do Sul, antigos rivais como Mocidade, São Lourenço e Grêmio Lourenciano convivem com sedes deterioradas, reflexo do esvaziamento de campeonatos e da ausência de políticas contínuas de fomento ao esporte.
Em Camaquã, o processo foi ainda mais visível. O clássico Clube Atlético Camaquense teve seu estádio permutado pelo antigo depósito da Cibrazem. O local original virou a atual Praça Zeca Netto, enquanto o terreno recebido em troca também acabou transformado em praça — deixando o Atlético sem casa e sem patrimônio. Já a situação do Guarani de Camaquã, cujo estádio entrou recentemente em negociação, preocupa torcedores, que temem ver mais uma referência esportiva da cidade simplesmente desaparecer do mapa.
No município de Cristal, a perda foi ainda mais drástica: a Sociedade Esportiva Cristalense, que já reuniu gerações de atletas e torcedores, desapareceu por completo. Sem competições regulares, sem apoio e sem estrutura, o clube deixou de existir, levando consigo um pedaço importante da história social local.
Apesar de esforços pontuais, criação de secretarias municipais, projetos de incentivo e até o Ministério do Esporte, as iniciativas ainda se mostram insuficientes diante da magnitude das perdas. A região da Costa Doce é hoje um retrato fiel de um processo que afeta todo o Rio Grande do Sul: clubes esvaziados, estádios abandonados, permutas que apagam memórias e o avanço de um mercado imobiliário que vê oportunidade onde comunidades enxergavam tradição.
O que está em risco não é apenas o futebol, mas um patrimônio cultural construído ao longo de gerações. Em muitas cidades, o apito final já soou; em outras, ainda há tempo para evitar que as arquibancadas silenciem de vez.
Foto:Divulgação Cristal Web Rádio
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OPINIÃO