ROBERTA PEDROSO - AFINAL COMO O NEGRO CHEGOU A ESCOLA? - PARTE II

Por: | Publicado: 07/10/2022 às 11h21 | Atualizado: 15/08/2023 às 14h43
Para compreendermos o título deste texto é necessário também,conhecer alguns personagens que desenharam este mapa.

Sabe-se que o abandono a que foi relegada a população negra brasileira motivou os negros do início do século XX a chamar para si a responsabilidade de educar e escolarizar as suas crianças, seus jovens e adultos, situação que se tornou bandeira de luta para o movimento negro, que objetiva uma sociedade pluricultural e plurirracial e o reconhecimento do legado africano para a construção do Brasil, imperativo para o povo desprovido dos cuidados do Estado.

É importante não esquecer que ainda vivemos uma intensa desigualdade racial no Brasil, associada a formas usualmente sutis de discriminação, como o desnível econômico, social e educacional entre brancos e negros, fato na maioria das vezes negado pela sociedade que afirma viver em uma “democracia racial”, expressão utilizada como instrumento de inclusão dos negros no processo de modernização do país. Tal argumento isenta a sociedade de qualquer compromisso com a população não branca, que vive no fictício mundo da “democracia racial”, termo cuja elaboração é atribuída ao sociólogo Gilberto Freyre.

A propósito de Casa-Grande & Senzala, é inegável a sua relevância para a história, seja pela tentativa de narrar o país sob a perspectiva de uma fraternidade racial, seja pela simples percepção de contar um Brasil de fora para dentro. Seria leviandade desconsiderar toda a pesquisa de Gilberto Freyre. Se até hoje existem resistências e críticas sobre a tese da miscigenação defendida pelo sociólogo, eis aí razões suficientes para levá-la até onde a história suportar.

O Brasil é reconhecido internacionalmente, desde meados do século XIX, como o país da mistura de raças. Desde então, muitos visitantes estrangeiros deixaram relatos de que a mistura de europeus, indígenas e negros seria o principal fator do atraso do Brasil. A opinião desse visitante era consenso entre a elite intelectual brasileira, salvo a exceção formada por aqueles que valorizavam a figura do indígena. Exemplo isolado de resistência a essas ideias foi o historiador sergipano Manoel Bomfim que, em 1903, denunciou o racismo como instrumento da dominação imperialista. Também cabe lembrar o caso de outro sergipano,
Silvio Romero que, apesar de sua posição ambígua a respeito da hierarquia entre as "raças" foi pioneiro na valorização da mestiçagem.

Desta forma, a elite da época, principalmente nas décadas de 1870 a 1930, tinha na mistura de raças diversas – a malfadada miscigenação – o problema que impossibilitaria a construção de uma nação “civilizada” por conta da predominância do negro em sua composição. Tudo isso só aumentava o complexo de vira-lata dos pensadores, que propalavam a miscigenação como empecilho para que o país alcançasse níveis superiores de desenvolvimento social e econômico. A título de exemplo, o renomado cientista baiano Nina Rodrigues, pioneiro dos estudos do negro e expoente do racismo científico brasileiro, dizia, em Os africanos no Brasil, de 1906, que a raça negra “há de constituir.

sempre um dos fatores de nossa inferioridade como povo” (RODRIGUES, 1903, p. 28). O negro “quase não se civiliza” e sua supremacia é “nociva à nossa nacionalidade”. As ideias de Nina Rodrigues tiveram grande aceitação social e influenciaram fortemente toda uma geração de cientistas e intelectuais brasileiros, inclusive escritores tidos como progressistas, como Euclides da Cunha.

Tal situação toma outro rumo quando da publicação de Casa Grande & Senzala, que marcou uma verdadeira mudança em relação às afirmações de Nina Rodrigues ao valorizar de forma sistemática e positiva a mestiçagem.

A tese de Gilberto Freyre foi uma atualização do pensamento conservador, carregando de forma subjacente um elogio ao papel da oligarquia dominante na construção desta civilização nova. Ele sustentava a valorização positiva da mestiçagem –acentuadamente no campo conservador – como prova e fator do caráter benévolo da escravidão e da amenização das relações sociais antagônicas no Brasil, fundamentando a visão conservadora do Brasil como nação sem luta de classes, onde os antagonismos seriam resolvidos de forma conciliadora e harmoniosa. Assim, pois, teríamos uma sociedade sem conflitos, cujo vértice ocupado pela classe dominante patriarcal que dirigia o país zelaria pelos interesses de todos, incluindo pretos e pardos.

Por outro lado, setores ligados à luta contra o racismo encaram a mestiçagem de forma profundamente negativa, visto que, se considerarmos a miscigenação entre os europeus e as indígenas e entre os senhores de escravos e as negras, constata-se que a “miscigenação”, em ambos os casos, não passou de estupro coletivo.

O escritor e dramaturgo Abdias do Nascimento, um dos mais antigos militantes do movimento antirracista brasileiro, condenava a miscigenação de forma peremptória. A “mestiçagem”, para ele, traduzia-se como ameaça para a raça negra, significando, na prática, o princípio de sua liquidação pelo embranquecimento da população, dissociando suas origens e, principalmente, relegando o contexto de violência onde foram produzidas.

Tudo quanto foi dito até aqui, abriu caminhos para a popularização das formas ideológicas, tanto de um lado quanto de outro, de encarar a história cujo estudo é necessário para esclarecer a trajetória da mestiçagem brasileira, a qual deve ser vista como um fato histórico a que nos cabe investigar as condições que, ao longo do tempo, nos levou à situação em que vivemos hoje, com suas contradições, conflitos e potencialidades.

 
Roberta Flores Pedroso
*Doutoranda em Literatura Brasileira UFRGS, autora de Pão, Texto e água: retrato da literatura quando negra (Figura de Linguagem)
 
 
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