ROBERTA PEDROSO - ASPECTOS CRESPOS DA LITERATURA NEGRA

Por: | Publicado: 07/10/2022 às 11h21 | Atualizado: 15/08/2023 às 14h43
ROBERTA PEDROSO - ASPECTOS CRESPOS DA LITERATURA NEGRA
É necessário pararmos para ouvir o silêncio destas múltiplas vozes que nos rodeiam e não percebemos. Há uma citação de Guimarães Rosa que diz assim: O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. No entanto, o que nos interessa é a saída e a travessia. É nesse espaço que se situa a Literatura afro-brasileira. Seu nascimento se deu no século 18 com o modinheiro Domingos Caldas Barbosa, que fazia uso de um vocabulário impregnado de oralidade, repleto de termos oriundos da língua tupi, mas sobretudo fazia uso de um léxico voltado especificamente para o universo afro-brasileiro. Este poeta, ridicularizado e humilhado por ter ousado entrar nos palácios recitando e cantando o lundum, um ritmo de negros, foi avançado em seu fazer artístico, buscando demonstrar o pertencimento ao Brasil e o vínculo com a tradição africana. É nesta seara que nasciam as primeiras sementes de uma literatura em que a cor, a identidade, a enunciação e a linguagem apontariam um novo território discursivo a fim de subverter o que estava cristalizado na Literatura “oficial”.

O negro já escrevia e produzia Literatura mas é a partir do início do século 19 quando datam os registros da escrita de um grupo esparso de autores afrodescendentes que manifestavam as especificidades de ser negro em uma sociedade escravista. Essa representação literária está no patrono Luís da Gama (1830 – 1882) e em Francisco de Paula Brito (1809 – 1861), o segundo editor brasileiro negro, uma liderança intelectual que congregava em sua livraria artistas, escritores, intelectuais e políticos de diversas tendências.

A possibilidade de transformação do meio pela literatura aparece, com força, primeiramente no romance em Maria Firmina dos Reis (1825-1917), que foi a primeira voz feminina que registrou a temática do negro com a publicação da obra Úrsula, em 1859. Há uma singularidade em Úrsula que é preciso ressaltar: é a primeira vez que o porão do navio negreiro aparece na literatura brasileira, do mesmo modo como, pela primeira vez na literatura brasileira, é dado o direito à voz para que uma escravizada africana relate ao leitor, através de suas memórias, o espetáculo de horrores do abjeto navio negreiro. Somente dez anos mais tarde, em 1869, conheceríamos o famoso poema de Castro Alves, “Navio Negreiro”, em que o poeta faz a denúncia da viagem dos cativos nos porões dos navios. Há ainda Auta de Souza que ora se identifica, ora se afasta da temática negra.

Considerando a visão de Antonio Candido, é possível identificar esparsas manifestações literárias afro-brasileiras, pois não apresentam regularidade nesse período, contrariando a continuidade da cadeia gerada entre autores e consumidores de literatura. Não por acaso, a Formação da Literatura Afro-brasileira demora a se constituir como um sistema. Por conta de uma trajetória de interesses da elite que comandava o país desde os tempos da colônia, não foi garantido ao negro um espaço no projeto educacional. Esta situação permaneceu mesmo depois da Proclamação da República atravessando o século 20, retardando o ingresso do negro no mundo das letras. Ao mesmo tempo, surge a imprensa negra com a organização das entidades para a viabilização de espaços de crítica e enunciação para escritores negros. Outra figura fundamental nessa formação foi Abdias do Nascimento e o TEM. Se coube à história e à literatura no punho do homem não negro a seleção de uns em detrimento de outros, será de punho do homem não branco reescrevê-la a partir do século 20, assumindo o papel de titular da narrativa como sujeito ativo de sua própria história e consequentemente, como sujeito leitor que se reconhece na sua formação social.

Exemplar dessa virada são os dois poemas com a mesma temática, mas com projeções antagônicas de escrita e leitura: Nega Fulô, de Jorge de Lima, que apresenta a mulher negra a serviço de quem a possui, o sinhozinho; e, Outra nega Fulô, de Oliveira Silveira, que enfatiza a insubordinação e reação contra os abusos a que mulheres negras historicamente foram submetidas.

É neste contexto que nasce outro leitor, tão politizado que é exige a revisão dos preconceitos raciais construídos nos textos literários. Entretanto, até os anos 2000, será com o apoio dos movimentos negros, e não das editoras, que se consolidará grande parte da escrita negra no mercado editorial, quase exclusivamente pelo trabalho coletivo realizado por membros desses grupos.

As estratégias de luta dos coletivos negros contra o racismo à brasileira orientariam ações futuras de outros grupos que viriam a fortalecer a produção artística e literária do negro nas próximas décadas, definindo um plano de projeto literário que considerasse o racismo no Brasil, a sua realidade concreta e a sua realidade sistêmica. Neste contexto, são criados em 1978 os Cadernos Negros – nos quais são publicados contos, poemas e textos críticos produzidos por autores negros –, constituindo um marco na história da literatura e na afirmação identitária e política dos movimentos negros.

Por toda uma produção iniciada na década de 70 que se estende até hoje, os Cadernos Negros constituem a Formação da Literatura Afro-brasileira,o mesmo esforço que Candido situa como literatura propriamente dita, a tríade autor/obra/leitor. No volume 30 dos Cadernos Negros, Esmeralda Ribeiro – escritora, jornalista e integrante do Quilombhoje desde 1982 – afirma que é preciso “uma alternativa à massacrante ausência do nosso ‘eu’ que impera nos livros por aí”.

A história oficial da literatura, construída sob o ponto de vista do branco, desde então encontra um contraponto, a problematização negra por uma nova ordem de produção literária. Já não é mais admissível – ainda que alguns grupos queiram – ignorar a existência no Brasil da "poesia negra" e da "prosa negra", muito menos da presença de escritores como Solano Trindade, Lino Guedes, Oswaldo de Camargo, Oliveira Silveira, Cuti, Esmeralda Ribeiro, Paulo Colina, Éle Semog, Miriam Alves, Geni Guimarães, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Ronald Augusto, Eliane Marques e muitos outros,
todos eles declaradamente escritores negros, de um novo cenário da literatura, a Literatura Afro-brasileira.

Como professora de literatura, tenho lutado, há decádas, por isso. Como mulher negra, suspeito que isso ainda não seja o suficiente.




Roberta Flores Pedroso
*Doutoranda em Literatura Brasileira UFRGS,
autora de Pão, Texto e água: retrato da literatura quando negra (Figura de Linguagem)
 
 

 
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