ROBERTA PEDROSO - ESSA POESIA CHAMADA OLIVEIRA SILVEIRA

Por: | Publicado: 07/10/2022 às 11h21 | Atualizado: 15/08/2023 às 14h43
ROBERTA PEDROSO - ESSA POESIA CHAMADA OLIVEIRA SILVEIRA
“O que está escrito é o que foi escrito sobre nós e o que nós escrevemos.” (André Breton)
Conhecer a vida de Oliveira pode até ser fácil, o próprio poeta encarregou-se de deixar registrado, ao longo de sua vida, fatos que foram relevantes em sua vida, e que aparecem em alguns poemas, como “Obrigada minha terra” (Obrigado rios de São Pedro/ pelo peso da água em meu remo./ Feitorias do linho-cânhamo / obrigado pelos lanhos. /Obrigado loiro trigo / pelo contraste comigo. / Obrigado lavoura /pelas vergas no meu couro. / Obrigado charqueadas / por minhas feridas salgadas.)

Conforme ele mesmo relatou em entrevistas, o filho de Felisberto Martins Silveira, branco, brasileiro de pais uruguaios, e de Anair Ferreira da Silveira, brasileira, de pai e mãe negros gaúchos, assim ele os definia, nasceu em 1941, na Serra do Caverá, distrito de Touro-Passo, município de Rosário do Sul, no Rio Grande do Sul, razão pela qual é possível compreendermos, as ligações de sua obra com as formas expressivas do tradicionalismo gaúcho presente no cotidiano de sua cidade natal. Num contexto financeiro não muito privilegiado, era quase improvável que aquele garoto – que viria a ser conhecido como um grande poeta e intelectual diaspórico no extremo sul do país – da zona rural percorreria uma história acadêmica de sucesso, concluindo graduação em Letras Português/ Francês, na UFRGS, e posteriormente lecionando na rede pública da capital. Quem percorre estas linhas pode até pensar que esta informação não seja tão relevante, entretanto, eram os anos sessenta, período em que a educação básica recebia timidamente a população negra em seus espaços de “saber”. Oliveira já chegava fazendo história. É neste contexto político e social, de pré golpe militar, que o autor reconhece a necessidade de engajamento na política estudantil e na causa negra, que por consequência, segundo o próprio poeta, o transformaria em um novo sujeito político.

É bem provável que o ingresso do poeta nestes espaços de resistência tenha sido a pedra basilar para construção de sua intelectualidade, sob a tinta do movimento da negritude, cuja influência na cultura atingiria Oliveira a partir das leituras de Aimé Césaire, poeta martinicano, e Langston Hughes, escritor e músico afro-americano. O grito poético do eu lírico em certos poemas de Silveira ocupa função semelhante à de Langston Hughes. Em “À África”, ele expõe que “Ás vezes te sinto como avó/ outra vezes te sinto como mãe./Quando te sinto como neto/ me sinto como sou. Quando te sinto como filho/ não estou me sentindo bem eu, / estou me sentindo aquele / que arrancaram de dentro de ti. Algo bastante semelhante ao trazido por Hughes, em “Negro” (I am a
Negro/Black as the night is black/Black like the depths of my Africa).

Percebe-se no movimento dos dois poemas que o fazer literário sugere a exaltação da ancestralidade africana, a afirmação de um lugar, mas sobre tudo uma tentativa de tornar pública uma nova experiência estética de como a negritude seria percebida, além de romper com a contação de sua história a partir da visão exclusiva do “outro”. Nesse momento, o negro passa a exigir seu direito de ser o próprio EU.

Para além destas influências, as pilastras básicas do fazer poético de Oliveira Silveira, encontra-se em sua obra um hibridismo enraizado entre o pampa e a diáspora africana. Numa das vozes mais influentes e expressivas da poesia brasileira de seu tempo, suas formulações sobre literatura e propõe um compromisso com a formulação e a legitimação de outros sistemas de representação do negro na poesia, construindo assim ricos contrapontos a temas caros a escritores
reconhecidos pela historiografia da literatura brasileira como intocáveis.


Oliveira Ferreira da Silveira, conhecido como Oliveira Silveira, foi um poeta, intelectual e militante negro brasileiro e idealizador do dia da consciência negra que, em sua trajetória, interrogou relações hegemônicas assim como expressou e propôs outras possibilidades do negro ser e estar no mundo e, portanto, no Brasil.
 
Silveira reescreveu o que foi dito de modo fraudulento sobre negros e negras, na história da literatura. Ele influenciou os intelectuais negros a reformular as páginas contadas sobre si próprios, uma vez que os escritos hegemônicos da Literatura Nacional difundiam, sem qualquer brio, uma discriminação avalizada pela elite dominante. Para além da reivindicação do respeito à alteridade, o objetivo estético de sua obra estabelece uma determinação singular, na qual o autor faz valer a sua perspectiva singular.

A narrativa da inexistência da presença negra no sul cumpriu um papel de suma importância para a produção do poeta. Ele se encarregou de produzir uma contranarrativa a respeito deste apagamento, ilustrando em seus poemas a luta pela afirmação da voz dos afrodescendentes. A consciência deste intelectual desacomodou a lógica do controle social quando questionou-se a letra do hino rio-grandense no trecho que diz” povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.

A despeito de suas qualidades literárias – ou talvez por causa delas – durante muito tempo, o poeta publicou por conta própria, o que não é novidade, considerando as dificuldades materiais que envolve a produção de livros no Brasil. É verdade que ultimamente temos visto algumas mudanças no que concerne à visibilidade das escrituras de autoria negra. Resta saber se esta ação é uma forma de remissão ou uma nova forma de opressão sobre as iniciativas editoriais negras e independentes. Hoje, em muito graças a Oliveira Silveira, temos uma polifonia de vozes capazes de reler e refazer a história mal escrita.


Roberta Flores Pedroso
Doutoranda em Literatura Brasileira, pela UFRGS;
autora de Pão, texto e água: Retrato da literatura quando negra (editora Figura de Linguagem)
 
 
Fotos: Divulgação Cristal Web Rádio
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