Ao falarmos do desenvolvimento humano a partir da ideia de engenharia, pode-se colocar em evidência o processo que se inicia na fase embrionária e que vai nos acompanhar até o fim da vida. Num primeiro momento, aquele inicial, da própria existência no ventre materno surgimos a partir de um núcleo original que vai tomando forma. Recebemos neste momento, não apenas caracteres físicos, genéticos, mas herdamos características psíquicas e espirituais, seja de nossos próprios pais, ou de nossos outros antepassados. E de repente, somos como que lançados no mundo onde encontramos um ambiente diverso no qual precisamos nos adaptar. Seguimos num processo de crescimento, desenvolvimento e formação de próprio “eu” e aos poucos vamos percebendo nossa própria capacidade de interagir com o mundo, com as pessoas num processo permanente de individuação e de realização. Estas palavras merecem nossa atenção por que tem uma relação muito profunda com o que somos.
A individuação é o processo da pessoa se reconhecer como indivíduo, relaciona-se a própria identidade, ao desenvolvimento de uma personalidade unificada e equilibrada. A realização é um anseio da alma humana que busca atingir o máximo de sua potencialidade. Se expressa pela busca da vontade de alcançar objetivos, realizar sonhos, encontrar um propósito maior de vida. Um sentido pelo qual vale a pena lutar.
A engenharia do desenvolvimento nos coloca diante de um processo de integração da dimensão física, psíquica e espiritual onde não há separação, como se cada dimensão fosse independente da outra, mas ao contrário, nos faz perceber que somos um todo orgânico. Com isso, quero dizer que tanto a individuação quanto a realização recebem elementos dessas dimensões e são elas que formam o indivíduo plenamente realizado. Assim, por exemplo, no processo de individuação recebemos da dimensão física, biológica, as características físicas, nos tornando como indivíduos únicos em relação aos outros. Da dimensão psíquica recebemos as sensações, os sentimentos, os estados de ânimo, os instintos, os desejos e afetos, bem como a capacidade intelectual, os padrões de comportamento adquiridos, as marcas provenientes da sociedade, etc. Da dimensão espiritual, por sua vez, recebemos as decisões autônomas da vontade, o interesse objetivo e artístico, a criação estética, a religiosidade, o sentimento ético (consciência), a apreensão dos valores, o amor, entre outros.
Já no processo de realização nos deparamos com a aceitação ou rejeição da própria aparência (física), com os complexos de inferioridade ou superioridade (psíquico) e com a autotranscendência e vontade de sentido (espiritual). O nosso mundo psicofísico é melhor compreendido quando inserimos o espiritual, não como algo à parte, mas como a dimensão verdadeiramente humana. Ora, esta tríplice dimensão da natureza humana expressa-se na relação com o mundo externo, ou seja, com as pessoas, com o outros. A dimensão social própria do ser humano integral, é o reflexo do mundo interior e sensível. Quando há desarmonia dessas dimensões, tudo à nossa volta pode entrar em colapso.
SANDRO DIAS
Escrito em 03/08/22*
LEIA TAMBÉM: SANDRO DIAS – ENGENHARIA DO DESENVOLVIMENTO PARTE 1